sexta-feira, 2 de abril de 2010

A menina e o urubu



A menina e o urubu
A MENINA E O URUBU
“porque tive fome, e não me destes de comer; tive sede, e não me destes de beber”
Esta menina estava usando suas últimas forças para se arrastar e chegar no acampamento onde ali havia algo para comer. Porém, no meio do caminho as suas forças se acabaram e ela então se prostra, talvez nos seus últimos suspiros vitais. Kevin Carter, o autor da foto, passava no momento e então com seu talento de fotógrafo registra a foto de sua vida. Pois recebeu um prêmio anual de fotografia por causa desta cena tão terrível.
Bem, fotografar esta menina não seria nada demais, para quem é pago para isso, mesmo sendo o cenário de quem morre de fome,. Contudo, Kevin Carter, após ter dado o clique de sua vida foi-se embora e nada fez para mudar a história de uma menina que com o seu corpo gritava por socorro desesperadamente. O urubu percebeu a hora da morte, como lhe é característico, porém, o fotógrafo, alheio ao clamor silencioso de uma indefesa criança parte para a fama, feita às custas de quem deu a sua própria vida.
É profundamente cruel uma cena como esta, tão cruel que Kevin Carter alguns meses depois se suicidou inalando gases na garagem de sua casa. O peso de não ter feito nada por esta menina lhe arrastou numa tempestade de remorso que ele passou a ter ódio desta fotografia, chegando a ponto de dar cabo de sua própria vida.
Lágrimas rolam no meu rosto insistentemente num sentimento de fraqueza, de covardia, indiferença e tantos sentimentos que possam martelar o meu interior. Não no sentido utópico e romântico achando que eu deveria estar lá e salvar esta menina e nem tão pouco no sentido satânico de acusar o fotógrafo eximindo-me de culpa. Lágrimas rolam no meu rosto em saber que a igreja é a resposta para esta geração, porém não se propõe a isso.
Sinto-me escandalizado ao lembrar que agora há pouco eu sentei à mesa e tomei o meu café, que não me falta nenhum dia e que daqui há pouco estarei deliciando um excelente almoço. Sinto-me envergonhado! Lembro das palavras de Jesus que disse que as almas exaustas e aflitas estavam como ovelhas que não têm pastor. Ecoa já nos meus ouvidos cristãos quando ele proferir: “Tive fome e não me destes de comer!!!” Também soa como sino em altíssimo som suas palavras ditas aos discípulos: “Dai-lhes vós mesmos de comer!!!” E então diríamos cinicamente ao olharmos nossas provisões: “O que é isto para tantos?”
Em Tiago 1:27 o Espírito diz à Igreja que a religião pura e sem macula é visitar os órfãos e as viúvas nas suas tribulações… Em Pv. 21:13 ele diz que se taparmos os ouvidos para o clamor do pobre, então não seremos ouvidos em nossos clamores. Já disseram uma vez que se perguntássemos a Jesus para quem é o reino de Deus ele possivelmente responderia: para os pobres. É só lermos Lucas 6:20 para tal coisa concluirmos. E eu no presente momento não tenho a pretensão de discorrer sobre esta ênfase, mas o meu propósito é alertar a igreja sobre seu descaso diante da pobreza e fome no mundo.
Já sabemos notoriamente que a igreja brasileira tem se enriquecido de forma grandiosa. Pastores que há muito desfilam de carros importados com seus valores absurdamente caros. Igrejas que possuem heliportos, elevadores privativos, sítios para festas e confraternizações domésticas, contas bancárias gordas, salários pastorais altíssimos e tudo isso não está à disposição dos órfãos e viúvas. Enriquecida igreja brasileira! Pobre igreja brasileira!
Em Apocalipse 22:16 Jesus diz que enviou um anjo para testificar tudo aquilo às igrejas. Ou seja, o Apocalipse é um livro direcionado às igrejas e pelo seu teor, só nos faz crer que a igreja já deixara na época a essência da igreja de Jerusalém. Nos primeiros capítulos do livro, vemos Jesus se direcionando à igreja. E cada carta direcionada ao anjo da igreja contém advertências para arrependimento. Porém me chama a atenção o contraste que Jesus faz quando diz que a igreja em Esmirna, que era pobre e ele não a considerava pobre, porém rica. Já a igreja em Laodicéia, que se dizia rica, ele a chama de pobre e miserável. E se analisarmos veremos, que esta é a nossa igreja do século XXI. Uma igreja rica, porém miserável. Que possui riquezas, talvez semelhantemente à igreja da idade média, mas que entesoura para si os seus recursos e caracteriza-se como uma igreja miserável. Temos o ouro e a prata, mas não temos Jesus, pois em Ap. 3:20 Ele diz que está do lado de fora, batendo na porta.
Escrevo este texto num domingo de carnaval e sei que a esta hora (15:00h), com o calor de aproximadamente 40º, os soldados do exército de Cristo estão em seus “retiros”, talvez numa piscina, cachoeira, praia ou coisa assim, enquanto os urubus continuam observando os moribundos em seus últimos golpes de sobrevivência. Investimentos altos são feitos, carnês que são quitados ao longo do ano para que em fevereiro o exército de Cristo relaxe e inconscientemente seja cúmplice e tire proveito da festa da carne. Enquanto isso satanás e seus ardilosos soldados conquistam mais almas. Literalmente, almas que adentrarão nos portais do inferno e jamais terão direito à vida abundante que só Jesus pode dar. Enquanto o inferno trabalha a igreja descansa. Enquanto os perdidos morrem a igreja continua investindo em si mesma. Talvez você me julgue radical. Não tem problema, pois o radical é aquele que deseja mudanças profundas. O pior é saber que depois do retiro nada muda. Os shopings vão continuar sendo invadidos pela igreja que sabe gastar com fidelidade, porém não como oferta ou dizima. A moda vai continuar fazendo a cabeça dos nossos jovens e o mundo continuará influenciando e ditando as normas “santas” da congregação.
Meninas como esta na foto estão espalhadas ao redor do mundo. Em Nilópolis, Rio de Janeiro, uma criança ao dar falta do que comer, se serviu de suas próprias fezes, pois a fome era intensa. Eu estive lá na sua comunidade e vi o menino, a igreja contribuiu com cestas básicas e outras coisas, porém fizemos muito pouco ainda. Em Jardim Gramacho, uma criança ao receber um brinquedo o devolveu e pediu para que lhe desse comida ao invés de brinquedo. O que você vai fazer? Reclamar das autoridades? Isto é pecado! Ore por eles. Porém fechar os olhos ou o coração também é pecado. Somos justificados também por obras (Tg 2:24). A fé sem obras é morta!
Em Ap. 22:12 Jesus diz: “Eis que venho sem demora, e comigo está o galardão que tenho para retribuir a cada um segundo as suas obras.” Atenção, será segundo as suas obras! Em I Jo 3:17 o Espírito diz que aquele que possui recursos deste mundo e vê o irmão passando necessidades e não lhe assiste, com certeza o amor de Deus não permanece em si. Podemos até dizer que não temos o bastante para matar a fome do povo, como fizeram os discípulos ao verem cinco pães e dois peixinhos ou também podemos nos achar ocupados demais para tal, como fizeram o levita e o sacerdote na história do bom samaritano. Porém, cada um será julgado por suas obras.
Quem viu a história de Oscar Schindler, um homem ímpio, que após ter investido todos os seus bens na compra de Judeus para os livrar da morte e ainda assim chorou e se amargurou por não ter vendido a sua aliança e o seu carro para poder ter livrado mais Judeus? Não deveríamos nós chorar e nos amargurar mais ainda em saber que nada nós fazemos em prol dos que além de morrerem nesta vida por causa da fome e miséria irão para o inferno? Não devemos nós chorar abundantemente em termos construído grandes catedrais ao invés de grandes orfanatos? Não devemos nós chorar mais ainda por termos tanto dinheiro para organizar mega-eventos com todo equipamento de primeiro mundo enquanto não se consegue por muitas vezes manter um casal de missionários em lugares aonde o evangelho ainda não chegou? Não digo um casal, mas todos. Pois creio que o mesmo Deus que deve receber a adoração num mega-evento é o mesmo que ama os perdidos e deseja que os missionários permaneçam no campo. Qual seria a prioridade? Os que estão em densas trevas ter a chance de ver a luz ou os que já são salvos se alegrarem com uma noite de celebração? Não devemos chorar muito mais quando as pesquisas revelam que 95% do gasto da igreja brasileira é feito consigo mesma em atividades domesticas? Não devemos chorar? Ou só Oscar Schindler, que era ímpio deveria chorar por vidas que não salvou?
Igreja brasileira desperta! O sertão nordestino ainda é assolado pela desnutrição, miséria e sofrimento e são 10.000 vilarejos sem nenhum crente. O Vale do Jequitinhonha precisa de você! Nos ribeirinhos, na Amazônia, são 35.000 povoados sem presença evangélica. Saia das grandes capitais, saia dos tapetes vermelhos, das quadras de futebol no fim de semana, dos ambientes refrigerados, das mesas de reuniões e vamos para os becos, para os valados, para o Haiti (país mais miserável das Américas), para os lugares obscuros desta terra, onde satanás se assentou com o seu trono e o expulsemos de lá com o amor de Deus, misericórdia e vida abundante. Faça como Abraão que expulsava as aves do céu. Como ele devemos fazer a nossa parte. Vamos expulsar os urubus que espreitam os moribundos e levemos vida onde há morte! E lembre sempre das palavras de Jesus: “Tive fome e me deste de comer!”
Que Deus te abençoe!
(PR Mauro Cruzeiro)

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